sexta-feira, 26 de maio de 2017

E X P O S I Ç Ã O - T U M U L T O


Alex Hornest (Onesto), tem o seu trabalho focado na relação entre as cidades e seus habitantes onde através de personagens do seu imaginário transitam em situações que podem ser interpretadas como realidade ou ficção, utilizando de diferentes técnicas como pintura, escultura, colagem, fotografia, áudio e artes visuais. Nesta exposição ele faz o uso de algumas dessas técnicas onde mistura suas ilustrações com objetos concretos fazendo uma correlação entre as gravuras e os matérias que acompanham cada uma delas. Causando um grande TUMULTO.

Vidros, cimento, tijolos, espelhos, pedras e cacos, são os elementos que compõem está exposição, através desses elementos é possível construir novas estruturas com esses materiais ou seus fragmentos. A junção ou desmantelamento desses materiais refletem o TUMULTO das capitais e das grandes cidades que estão sempre em processo de construção e demolição, a agitação urbana, o motim, a revolta política fazem parte da vida cotidiana e essa inquietação é pulsante nas grandes cidades em que entulhos viram armas contra o ataque opressor do Estado e sua tropa de choque.
Dizendo Não As Regras, o artista segue Proporcionando a Discórdia nos levando há um Conflito Interno através de Movimentos Mínimos, onde usa a sua arte como expoente e questionador dos Atos Vulgares cometidos constantemente em nossa sociedade ao qual estamos submetidos pela falta de políticas inclusivas em que se construa os Alicerces para uma sociedade mais justa e igualitária, mesmo sabendo que a luta não será fácil, pois Não Foi Fácil Em Nenhum Momento.

A Okupação Cultural Coragem recebe este trabalho de Alex Hornest e nos convida a fazer um grande TUMULTO de indignação política, um motim, uma revolta, uma provocação para que nos agitemos e provoquemos a desordem nesse Estado tão desordenado em relação a nós, o povo da periferia.




https://www.facebook.com/events/1868779490013430/?active_tab=about

Encerramento dia 10/06/2017


Rua Vicente Avelar, 53
Conj. Resid. José Bonifácio - Itaquera
10 minutos da estação de trem José Bonifácio.
Estacionamento no local.
  • Entrada gratuita

terça-feira, 9 de maio de 2017

Mapeamento Social - Apresentação final do curso

Neste trabalho cartográfico, iremos apresentar alguns pontos de Itaquera de acordo com entrevista realizada com alguns moradores do bairro e pesquisas, onde o objetivo é apresentar as transformações ocorridas ao longo dos anos, seu desenvolvimento e a forma como as pessoas do bairro interagem com essas mudanças.
Em nossas pesquisas levantamos dados importantes que remontam um pouco da história do bairro, locais importantes e personalidades. Com esse trabalho iremos apontar alguns desses pontos, contando um pouco sobre o bairro aguçando a curiosidade do observador para que o mesmo busque por si conhecer mais sobre Itaquera.

Você sabia que a estação de trem de Itaquera foi inaugurada em 1875 com o nome de São Miguel, por ser ainda apenas denominada como “roça Itaquera” e ser subdistrito de São Miguel Paulista, passou a ser chamada de Estação Itaquera a partir de 1909, em 1920  Itaquera passou a ser um “Distrito autônomo” e começou a se desenvolver, em 1930 foi construído um prédio mais novo em substituição ao antigo, nos anos de 1960 passou por uma ampliação da plataforma, em 1998 reforma do prédio, em 2000 foi desativada e em 2004 demolida para a construção da extensão da radial leste até Guaianases e a praça da estação continuou no mesmo local passando por uma reforma em 2014.
Itaquera também foi lar do grande magnata da industria de tabaco Sábbado D’angelo, que ao contrário de seus pares fez sua mansão na rua que hoje tem seu nome,  longe dos logradouros famosos da época como Avenida Paulista e Campos Elíseos, faleceu na década de 1930 deixando sua residência, a Chácara Sudan, para que fosse usado como estabelecimento hospitalar ou de educação profissional, o qual foi feito em 1945 pela sua viúva que criou a Fundação Anita Pastore. Porém, não se sabe quando, o imóvel passou para o controle da TFP (Tradição Família e Propriedade), instituição católica que passou a usar apenas para fins relacionados a praticas religiosas ou eventos relacionados a sua causa. Hoje o imóvel encontra-se em processo judicial e abandonado.
Neste mapa também será possível localizar a antiga Estrada do Pêssego, que recebeu este nome devido a grande concentração de plantações de pêssego na região e ter sido aberta para a escoação da fruta, assim como também imagens do córrego Jacu. Também apontamos como referência o prédio da Casa da Divina Providência Dona Gertrudes Pires de Campos, por ser um educandário e internato do bairro fundado em 1928, o parque Linear, a Estação Dom Bosco da CPTM, a Sociedade Desportiva Elite que a mais de 90 anos atua no bairro em ações esportivas, shows e festas, já recebeu artistas como Roberto Carlos e Agnaldo Rayol nos seus tempos mais áureos. Além desses citados, você poderá observar no mapa outros pontos que são referência do desenvolvimento de Itaquera.

E a região onde está a Estação de Metrô Corinthians-Itaquera, que tem mudado a dinâmica do bairro fazendo de seu entorno o novo centro de compras e convivência dos que passam por Itaquera, tirando o contato com o comerciante local e tornando o cotidiano mais superficial e menos “bairristico” e familiar como era antes. No entorno do Metrô, está o Shopping Center, Arena de futebol, FATEC, UPA (Unidade de Pronto Atendimento), POUPATEMPO e futuramente projeto de um polo institucional com Fórum, Rodoviária, SENAI, Incubadora e Laboratórios, centro de convenções, auditório, centro cultural, salas comerciais, Policia Militar e Bombeiros, Instituto Dom Bosco, conforme consta no plano diretor de 2012 para a região.

Neste trabalho também desenvolvemos um mapa digital que você pode navegar através do link abaixo:
https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1p2ywcG5EtRKSlAwPMbaTQFE3O1s&ll=-23.536271515413095%2C-46.52326979999998&z=12

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Exposição "Reprocesso" - Fabio Biofa



“REPROCESSO” – Ação que expressa continuidade na realização de determinada atividade. A exposição do artista Fabio Biofa nos mostra a desconstrução de seus personagens para abrir espaço à construção de novas figuras a partir de fragmentos daquilo que fora antes.  Neste processo várias partes do corpo compõem novas figuras sob uma nova perspectiva, nos mostrando a possibilidade de se recriar, reprocessar aquilo que já havia sido concebido de outra forma, se transformando e compondo novas histórias de objetivos em uma nova identidade visual e gráfica. Permitindo e nos guiando à novas percepções de uma obra, onde temos a experiência de construir algo novo através de vestígios, resíduos e substratos do que um dia existiu.

A exposição "REPROCESSO" tem como propósito reutilizar objetos e materiais descartados pela sociedade, apresentando formas de utilização de materiais que por muitas vezes são ignorados e tratados de maneira inadequada, contribuindo para a poluição e degradação do meio ambiente, por serem matérias não orgânicas e biodegradáveis, quando jogada no meio ambiente causam impactos ambientais irreversíveis, ao usar materiais recicláveis  e transforma-los em obras de arte nos faz refletir sobre o tratamento que damos a esses materiais, a materialidade e sua possível transformação.
Esse iniciativa busca descentralizar e democratizar o acesso a arte, onde o artista em parceria com a ação Coletiva Okupação Coragem na Cohab II de Itaquera, montou está exposição em seu  espaço com acesso livre e gratuito à toda população. Mostrando que a arte é uma importante via de conscientização política e de responsabilidade social.


“REPROCESSO” é um convite ao público para desconstruir conceitos, pensamentos, olhares e atitudes, se reciclando através de suas vivências e observações, compartilhando e buscando novas formas de perceber o mundo, os objetos e seres, assim como na sua relação com o todo. Podendo reinventar sob uma nova ótica as suas ações a partir do conceito de “construir, desconstruir e reconstruir”, reprocessar. Podemos através disto, refletir o quanto nossas ações impactam na vida social e no meio ambiente e como podemos fazer com que essa contribuição seja positiva para nosso desenvolvimento humano e social.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CAPITULO IV - OS BRASIS NA HISTÓRIA


Nesta parte do livro, Darcy Ribeiro nos apresenta através de sua pesquisa que a identidade dos brasileiros se explica pela precocidade de sua constituição e pela flexibilidade, que permitiram uma adaptação secular, ajustamentos locais e a sobrevivência dos ciclos produtivos. Identificou cinco tipos de Brasis, ou seja, cinco regiões extremamente diferentes, com costumes, tradições e culturas diversas.
O Brasil crioulo localizado na região do recôncavo baiano, no nordeste brasileiro, tem no centro de seu contexto, os grandes engenhos. Em resumo, este Brasil inicialmente era dominado pelos senhores de engenho e tinha na cana-de-açúcar a sua principal fonte produtiva. Em um primeiro contato do português com o indígena, ocorre a tentativa infeliz de escravizá-lo, desta forma, a solução para o problema de mão de obra para o ciclo de produção da cana-de-açúcar aparece com o comércio de escravos (negros), para suprir a escassez da mão de obra.
Com a produção de açúcar holandesa nas Antilhas, a economia brasileira começou a entrar em declínio. No fim do século XIX, com a abolição da escravatura, os negros passaram a ganhar um pedaço de terras para trabalhar como agregados e poder adquirir produtos do senhor de engenho. O Brasil caboclo ocorre na Amazônia, com a tentativa de explorar seus recursos naturais, como a madeira, o ouro, as pedras preciosas, e especialmente os seringais. O autor explica que mesmo nas zonas de maior densidade, os seringais cobrem enormes extensões, impedindo que a população se organize em núcleos consideráveis. Além disso, ocorreu a introdução de novas culturas, como a criação de gado e o plantio de lavouras, tudo isto feito de forma desordenada, e sem consciência ecológica, empurrando o índio “mata a dentro” cada vez mais, dificultando o processo de tentar convertê-los ao catolicismo. Neste contexto, alguns indígenas foram escravizados, na tentativa de utilizar de suas técnicas na floresta para realizar o extrativismo das chamadas “drogas da mata”, especiarias como cacau, cravo, canela, baunilha, sementes, entre outras.
O Brasil sertanejo desenvolveu uma economia associada à produção de uma subcultura própria caracterizada por uma vestimenta, culinária e visão de mundo bem típicas. Primeiramente o pastoreio se fazia pelos próprios senhores de engenho, mas com o tempo a atividade tornou-se especificidade de criadores. O gado era recebido pela família do vaqueiro e seus ajudantes, sendo que as relações eram menos desiguais nesse sistema, o que atraía muitos mestiços à atividade. Este sistema surge como dependente da atividade açucareira, utilizando das pastagens e do gado trazidos pelos portugueses de Cabo Verde. A necessidade de recuperar e apartar o gado levou à cooperação entre as pessoas, acabando por transformar a convivência entre as mesmas. Desta convivência surgiram festas, bailes, casamentos e uma maior atividade social no movimento de expansão. O sertão era cortado e ocupado pelos homens que marchavam de pouco em pouco, avançando cada vez mais para o interior, as populações sertanejas, desenvolvendo-se isoladas da costa, dispersas em pequenos núcleos através do deserto humano que é o mediterrâneo pastoril, conservaram muitos traços arcaicos. Aos poucos, os lugarejos iam se transformando em vilas e cidades, fazendo crescer os locais de habitação urbanos, tornando-se um grande negócio para as oligarquias regionais, que perduram até os dias de hoje.
 Outro Brasil que o autor identificou foi o Brasil caipira. Enquanto os açucareiros do nordeste cresciam e enriqueciam, a população paulista se via numa economia de pobreza, que, inclusive, está na base das motivações e dos hábitos e caráter do paulista antigo. Isso fazia deles um bando de aventureiros sempre disponíveis para qualquer tarefa desesperada, porém, mais predispostos ao saqueio que à produção. Com a descoberta das minas, multidões vindas de todo o país e até de Portugal chegaram até elas, ricos, remediados e pobres, todos tentavam a sorte nas minas. Inicialmente, o ouro se encontrava à flor da terra para simplesmente ser apanhado. Logo apareceram graves conflitos contra invasores e contra a Coroa. 
A sociedade mineira, centro da mineração, adquiriu feições peculiares com influências paulistas, européias, escravas e de outros brasileiros de outras regiões. A rede urbana ampliou-se, cresciam edifícios públicos, igrejas e a arquitetura barroca. Desenvolveu-se uma classe de ricos comerciantes e burocratas. A literatura, a música e a política libertária também tiveram um grande desenvolvimento. Abaixo das castas superiores estavam o mulato e o negro, que faziam serviços domésticos e trabalhos braçais. Na base da sociedade estavam os negros escravos trabalhadores das minas. Com o esgotamento dos aluviões, a região entra em decadência. Mineradores se fazem fazendeiros de lavouras de subsistência e de gado, essa situação duraria pouco, pois logo surgiria uma nova forma de produção agroexportadora: o plantio do café, que revitalizaria a região. As cidades voltam a crescer, o domínio da oligarquia se remonopoliza e ocorre um processo de reordenação social. A produção diminui e torna-se pequena, se comparada à produção de sua época áurea. O café representou um papel modernizador e integrador para o país, porém movia-se sempre para a frente, deixando para trás áreas devastadas e erodidas. A massa de estrangeiros que aqui chegavam e iam se abrasileirando e deixando suas influência para este Brasil caipira.

A expansão dos paulistas atingiu a região sulina, antes dominada por espanhóis, tendo sido esta a causa que anexou a região Sul ao Brasil. Surge desta forma, o Brasil sulino. Houveram também as missões jesuíticas, que vieram para catequizar os índios guaranis, depois se deram os conflitos com os bandeirantes que dizimaram muitos índios guaranis, forçando os jesuítas a se bandearem pras missões argentinas e paraguaias. Os três componentes sociais do Brasil sulino são o nativo de origem açoriana, o gaúcho (mestiço do espanhol ou do português com o indígena guarani) e o gringo (descendente do imigrante).
O terceiro grupo, o dos gringos, de origem germânica e italiana principalmente, diferencia-se do restante da população por seu bilingüismo, seus hábitos europeus, seu nível educacional mais elevado e um modo de vida confinado em pequenas propriedades, com uma produção diversificada, com base em bovinos, plantio, vinho, entre outras culturas. Imigrantes europeus foram obrigados a aprender o idioma português e a alistar-se nas forças armadas brasileiras. No Brasil sulino ocorreu ainda a distribuição de terras de forma legal, as chamadas sesmarias, na região de Rio Grande, Pelotas, Viamão e Missões. Os estancieiros viram caudilhos e mais tarde se tornam patrões e em tempos menos distantes, tornam-se proprietários de frigoríficos e matadouros. As gerações seguintes, beneficiárias dos resultados desses sacrifícios pioneiros, encontraram condições mais propícias.

Muitos índios e poucos portugueses, misturados pelos jesuítas, eis a origem do nosso caboclo, que habita no lugar de beleza incomparável, beleza só nossa e de alguns vizinhos, a beleza da Amazônia. O chamado Jardim da Terra, de uma extensão imensa. Lá impera a exuberância e o mistério, o mito das riquezas, do ouro e da prata. Das mulheres guerreiras, de gigantes e de anões, das drogas e das plantas fantásticas. A chegada dos europeus representou a catástrofe. As doenças que trouxeram entraram no corpo dos índios para dizimá-los. Foi o sarampo, a bexiga, as cáries dentárias, a caxumba e as gripes. todas mataram grande número de índios. Os que sobraram foram transformados em escravos, para a coleta das drogas do sertão, ou então ficaram sob o controle da catequese de jesuítas, carmelitas e franciscanos.
Este caboclos se transformaram em índios genéricos, sem língua própria, sem identidade. Uma enorme massa de índios, de poucos brancos e negros formou uma nova matriz étnica. Falavam o tupi, uma língua estrangeira que lhes foi trazida pelos jesuítas. O português era apenas a segunda língua, que foi se firmando, graças aos esforços, no segundo reinado. Viviam das drogas do sertão e da abundância da natureza, da forma mais rudimentar e primitiva. A partir de 1880 ocorreu a primeira grande transformação, que marcou o seu maior florescimento econômico. A borracha abriu um ciclo econômico vinculado com a exportação, com a Europa. Para lá é que eram drenados todos os recursos. O seringueiro levava uma vida desgraçada e que conheceu uma nova forma de exploração, o sistema de aviamento. Ele recebia adiantamente as mercadorias que precisava, poucas na verdade: comida, roupas, pólvora,  e pagava depois, mas nunca conseguia pagar. As contas sempre pendiam para um lado só. Manaus transformou-se na capital mundial da borracha e Belém na capital da Amazônia. Depois da primeira guerra o cenário muda. A Malásia domina o mercado da borracha e aqui ocorre a debandada. Empresários se suicidam, casas e palácios começam a ruir e Manaus, a primeira cidade brasileira a ter telefone, energia elétrica e bondes, na década de cinquenta nem energia elétrica mais tinha. Um novo período de desastres se reabrirá com o projeto dos militares golpistas. Queriam integrar a amazônia, loteando-a para os grandes grupos internacionais. Com a Transamazônica queriam levar a modernidade à região. Mas só inauguraram uma nova via crucis de conflitos agrários e de destruição de áreas indígenas. A desintegração e os conflitos tomam conta da região. A contradição é percebida e os povos da floresta se organizam. A morte de Chico Mendes representa simbolicamente todo este conflito. Até hoje a civilização se mostrou incapaz de produzir um sistema de viabilidade econômica às condições da floresta tropical. E segundo Darcy Ribeiro  lá vive o povo mais culto da terra, o povo mais culto do Brasil. Tem dez mil anos de sabedoria herdada, de convívio com a natureza e de saber sobreviver nela, sem degradá-la. O que não seria de uma economia que incorporasse o cupuaçu, o bacuri e tantas outras frutas numa agricultura organizada.

FONTE: "O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro"

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

CAPITULO III - O PROCESSO SOCIOCULTURAL - parte 2


A distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros. Entretanto a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi, ainda é, a conquista de um lugar de um papel de participante legítimo na sociedade nacional. As atuais classes dominantes brasileira, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. A nação brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, nunca fez nada pela massa negra que a construíra, negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas sem que pudesse educar seus filhos e de qualquer ordem de assistência. Porém, o negro urbano veio a ser o que há de mais vigoroso e belo na cultura popular brasileira, com base nela é que se estrutura o nosso Carnaval, o culto de Iemanjá, a capoeira e inumeráveis manifestações culturais. O negro aproveita cada oportunidade que lhe é dada para expressar o seu valor, isso ocorre em todos os campos em que não exige escolaridade, como por exemplo na MPB, no futebol e outras formas de competição e de expressão. O enorme contingente de negro e mulato, é talvez, o mais brasileiro dos componentes de nosso povo. O mulato em virtude de seu vigor híbrido e talvez por isso possuem maiores chances de ascensão social, ainda que só progredisse na medida em que negava sua negritute. Nos últimos anos, por efeito do sucesso do negro americano, que foi tido pelos brasileiros como uma vitória da raça, o negro brasileiro vem tomando coragem de assumir orgulhosamente sua condição de negro. O mesmo ocorreu a muitos mulatos que saltaram para o lado negro de sua dupla natureza. A característica distintiva do racismo brasileiro é que ele não incide sobre a origem racial das pessoas, mas sobre a cor de sua pele. Nessa escala, negro é o negro retinto, o mulato já é o pardo e como tal meio branco, e se a pele é um pouco mais clara, já passa a incorporar a comunidade branca. O aspecto mais perverso do racismo assimilicionista é que ele dá de si uma imagem de maior sociabilidade, quando, de fato, desarma o negro para lutar contra a pobreza que lhe é imposta, e dissimula as condições de terrível violência a que é submetido. A democracia racial é possível, mas ó é praticável conjuntamente com a democracia social. Ou bem há democracia para todos, ou não há democracia para ninguém, porque à opressão do negro condenado à dignidade de lutador da liberdade, coresponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor dentro de sua própria sociedade.
O censo de 1950 permite algumas comparações significativas entre as condições de vida e de trabalho de negros e brancos na população brasileira ativa. Considerando, por exemplo, o grupo patronal em conjunto, verifica-se que as possibilidades de um negro chegar a integrá-lo são enormemente menores, já que de cada mil brancos ativos maiores de dez anos, 23 são empregadores, contra apenas quatro pretos donos de empresas por cada mil empregados. Examinando a carreira do negro no Brasil se verifica que introduzido como escravo, ele foi desde o primeiro momento chamado à execução das tarefas mais duras,  como mão de obra fundamental de todos os setores produtivos.
Tratado como besta de carga exaurida no trabalho, na qualidade de mero investimento destinado a produzir o máximo de lucros, enfrentava precaríssimas condições de sobrevivência. Ascendendo à condição de trabalhador livre, antes ou depois da abolição, o negro se via preso a novas formas de exploração que , embora melhores que a escravidão, só lhe permitiam integrar-se na sociedade e no mundo cultural, que se tornaram seus, na condição de um subproletariado compelido ao exercício de seu antigo papel, que continuava sendo principalmente o de animal de serviço. Apesar da associação da pobreza com a negritude, as diferenças profundas que separam a e opõem os brasileiros em extratos flagrantemente contrastantes são de natureza social. Entretanto, o vigor da ideologia assimilacionista, assentada na cultura vulgar e também ensinada nas escolas, e das atitudes que começam a generalizar-se entre todos os brasileiros de orgulho por sua origem multirracial, e dos negros por sua própria ancestralidade, permitirão enfrentar com êxito as tensões sociais decorrentes de uma ascensão do negro, que lhe augure uma participação igualitária na sociedade nacional. É preciso que assim seja, porque somente assim se há de superar um dos conflitos mais dramáticos que desgarra a solidariedade dos brasileiros.
O contingente imigratória europeu intergrado na população brasileira é avaliado em 5 milhões de pessoas compostos principalmente por portugueses, que vieram desde os primeiros séculos e se tornaram dominantes pela multiplicação operada através do caldeamento com índios e negros, posteriormente seguem-se os italianos, os espanhóis, os alemães, os japoneses e outros contingentes menores de eslavos e árabes. O papel do imigrante foi muito importante como formador de certos conglomerados regionais nas áreas sulinas em que mais se concentrou, criando paisagens caracteristicamente europeias e populações dominadoramente brancas.
O conjunto plasmado com tantas contribuições, é essencialmente uno enquanto etnia nacional, não deixando lugar a que tensões eventuais se organizem em torno de unidades regionais, raciais ou culturais opostas. Uma mesma cultura a todos engloba e uma vigorosa autodefinição nacional, cada vez mais brasileira, a todos anima. Esse brasileirismo é hoje tão arraigado que resulta em xenofobia, por um lado, e por outro lado, em vanglória nacionalista. Os brasileiros todos torcem nas copas do mundo com um sentimento tão profundo como se  se tratasse de guerra de nosso povo contra todos os outros povos do mundo. As vitórias são festejadas em cada família e as derrotas sofridas como vergonhas pessoais.
A contraparte dialética da intencionalidade do projeto colonial é o caráter anárquico, que obrigava a buscar soluções próprias ajustadas à sua natureza e agindo longe das vontades oficiais, a ação do colono exerceu-se quase sempre improvisadamente e ao sabor das circunstâncias. O maior susto que tiveram os portugueses, no passado, foi ver a força de trabalho escrava, reunida com propósitos exclusivamente mercantis para ser desgastada na produção, insurgir-se, pretendendo ser tida como gente com veleidades de autonomia e autogoverno. Do mesmo modo, a grande perplexidade das classes dominantes atuais é que esses descendentes daqueles negros, índios e mestiços ousem pensar que este país é uma república que deve ser dirigida pela vontade deles como seu povo que são. A resistência às forças inovadoras da Revolução Industrial e a causa fundamental de sua lentidão não se encontram no povo o no caráter arcaico de sua cultura, mas na resistência das classes dominantes. Particularmente nos seus interesses e privilégios, fundados numa ordenação estrutural arcaica e num modo infeliz de articulação com a economia mundial, que atuam como um fator de atraso, mas são defendidos com todas as suas forças contra qualquer mudança. Ao contrário do que ocorre nas sociedades autônomas, aqui o povo não existe para si e sim para outros. Ontem, era uma força de trabalho escrava de uma empresa agro mercantil exportadora. Hoje, é uma oferta de mão de obra que aspira a trabalhar e um mercado potencial que aspira a consumir. O patronato, na função de coordenador das atividades produtivas, e o patriciado, no exercício do papel de ordenador da vida social, puderam assim fazer frente a todas as tendências dissociativas, preservando a unidade nacional. Desse modo é que o Brasil se implanta como sociedade nacional sobre um imenso território, envolvendo milhões de pessoas mediante o crescimento e diversificação adaptativa do núcleo unitário original, simultaneamente com o estabelecimento de representações locais da mesma camada dirigente em dada uma das variantes regionais.
Transfiguração étnica é o processo através do qual os povos, enquanto entidades culturais, nascem, se transformam e morrem. O primeiro é a biótica que com as relações entre outros seres de regiões diferentes trouxeram epidemias e germes que traziam não o vitimavam mas exterminavam que se aproximasse a eles. Uma segunda instância é a ecológica, pela qual os seres vivos, por coexistirem, afetam-se uns aos outros em sua forma física, em seu desempenho vital. A terceira instância é a econômica, que, convertendo uma população em condição de existência material de outro, em prejuízo de si própria, pode levá-la ao extermínio. Uma última instância é a psicocultural que pode dizimar populações retirando-lhes o desejo de viver, como ocorreu com os povos indígenas que se deixaram morrer por não desejar a vida que se lhes ofereciam. Na história do Brasil, vimos surgir o brasilíndio como um contingente de vigor admirável tanto na destruição de seu gentio materno, como forma de expandir-se, quanto apropriando-se de mulheres para reproduzir. Vimos algo semelhante ocorrer com o negro, que, refugiando-se num quilombo, reconstitui a vida que aprendera a viver no núcleo colonial de forma a readquirir sua dignidade e possibilitar sua sobrevivência. A imigração estrangeira, principalmente de pobres trabalhadores brancos europeus, tornados excedentes de suas economias nacionais, representou também uma enorme ameaça de transfiguração da população brasileira preexistente, tal como ocorreu no Uruguai e Argentina. Tais são os brasileiros de hoje, na etapa que atravessam de sua luta pela existência. Já não há praticamente índios ameaçando o seu destino. Também os negros desafricanizados se integram nela como um contingente diferenciado, mas que não aspira a nenhuma autonomia étnica. O próprio branco vai ficando cada vez mais moreno e até orgulhoso disso.

Fonte: "O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro."

terça-feira, 13 de setembro de 2016

CAPITULO III - PROCESSO SOCIOCULTURAL - parte 1


Na busca de uma identidade étnica única tiveram várias guerras no Brasil de uma determinada raiz étnica subjulgando a outra, temos a exemplo disso a guerra dos Cabanos, assim com também os Palmares. Um outro exemplo foi Canudos que tinha um viés mais classista. O processo de formação do povo brasileiro, que se fez pelo entrechoque de seus contingentes índios, negros e brancos, foi altamente conflitivo. O conflito interétnico se processa no curso de um movimento secular de sucessão ecológica entre a população original do território e o invasor que a fustiga afim de implementar um novo tio de economia e de sociedade. As forças que se defrontam nessas lutas eram desiguais, de um lado as sociedades tribais que eram estruturadas com base no parentesco e outras formas de sociabilidade e com uma profunda identificação étinica e com um modo de vida solidário. Do lado oposto, uma estrutura estatal, fundada na conquista e dominação de um território, cujos habitantes, qualquer que seja a sua origem, compõem uma sociedade articulada em classes, antagonicamente opostas mais imperativamente unificadas para o cumprimento de metas econômicas socialmente responsáveis. Ao longo de dois séculos e meio, os conflitos sucederam o plano adminstrativo que culminou na deportação dos Jesuítas primeiro em São Paulo se espalhando para a demais regiões da colônia. A companhia dos jesuítas crescera de tal forma que se tornara muito rica, eles tinha grandes propriedades de terras, as melhores propriedades urbanas, engenhos, rebanhos, serrarias e muitos outros bens. Quando foram expulso pode se avaliar o tamanho de seus bens durante o espólio para a distribuição entre os colonos nobres. O sistema de economia solidária pregada pelos jesuítas tomara tamanha proporção que passou a causar inveja e cobiça, fazendo com que pressionassem a coroa para a desapropriação desses bens a fim de toma-los para si através do sistema burocrático.
No plano econômico o Brasil é produto de implantação e interação de quatro ordens de ação empresarial, sendo primeiramente a principal delas a escravista ( latifundiária e monocultura), subsequente mente a comunitária jesuítica, a multiplicidade de microempresas de produção de gêneros de subsistência e de criação de gado. As empresas escravistas integram o Brasil nascente na economia mundial e asseguram a prosperidade secular dos ricos, as missões jesuíticas solaparam a resistência dos índios, contribuindo para a liquidação, as empresas de subsistência viabilizaram a sobrevivência de todos e incorporaram os mestiços de europeus com índios e com negros, plasmando o que viria a ser o grosso do povo brasileiro. Sobre esta três empresas, havia uma quarta dominadora, constituída pelo núcleo portuário de banqueiros, armadores e comerciantes de importação e exportação, sendo este o setor mais lucrativo da economia colonial, pois intermediava as relações entre Brasil, Europa e Africa no tráfico marítico, no câmbio, na compra e venda.
Na organização Urbana, nossa primeira cidade, de fato, foi a Bahia, já no primeiro século, onde surgem também o Rio de janeiro e João Pessoa. A partir do segundo século e nos subsequentes irão surgindo as outras cidades que foram crescendo no decorrer dos séculos e se tornaram centros de vida urbana. A independencia espalhou quantidades de lusitanos por toda a parte, todos muito voltados ao comércio, como agentes de empresas inglesas. A abolição, dando alguma oportunidade de ir e vir aos negros, encheu as cidade do Rio de Janeiro e da Bahia de núcleos chamados africanos, que se desdobraram nas favelas de agora. Na passagem do século com a crise de desemprego na Europa desembarcam cerca de 7 milhões de europeus no Brasil, concentrando a maior parte em São Paulo onde renovaram a economia da região. Foram eles quem iniciaram o processo de industrialização do país. As cidades e vilas da rede colonial que correspondem a civilização agrária, eram centros de dominação colonial criados por ato expresso da Coroa para defesa da costa. Exerciam, como função principal, o comércio de importação e contrabando, a prestação de serviços aos setores produtivos na cobrança de impostos e taxas, concessão de terras, de legitimação de transmissão de bens por herança ou por venda e de julgamento de conflitos. As principais edificações das cidades eram igrejas, conventos e fortalezas, que também era seu principal atrativo. O fazendeiro ou comerciante tinha e mantinha agregados que os serviam sem nenhum salário, apenas recebiam os mantimentos para sua sobrevivência. Essa gente auxiliava e todas as tarefas doméstica e estava destinadas a abrilhantar a posição dos ricos e remediados, carregando a eles próprios, a seus objetos e dejetos, amamentando os recém-nascidos, servindo-lhes, enfim de mãos e de pés. Apesar das diferenças entre as formações socioculturais europeias e as brasileiras, ambas eram fruto de um mesmo movimento civilizatório. Com a industrialização se altera essa constelação urbana no que tinha de fundamental, que era sua tecnologia produtiva, transformando todo o seu modo de ser, de pensar e de agir.
            No Brasil, a industrialização promove a expulsão da população do campo, com o crescimento dessas populações do campo ao longo dos séculos anteriores a este processo, vivemos um dos mais violentos êxodos rurais, tanto mais grave porque nenhuma cidade brasileira estava em condições de receber esse contingente espantoso de população. Sua consequência foi o aumento da miséria da população urbana e maior competitividade por empregos, embora haja variações regionais e São Paulo represente um grande percentual nesse translado, o fenômeno se deu por todo o país. No presente século, teve lugar uma urbanização caótica provocada menos pela atratividade da cidade do que pela evasão da população rural, ocasionando na loucura de termos algumas das maiores cidades do mundo, tais como São Paulo e Rio de Janeiro, com o dobro da população de Paris ou Roma, mas dez vezes menos dotadas de serviços urbanos e de oportunidade de trabalho. Esse crescimento explosivo entra em crise em 1982, anunciando a impossibilidade de seguir crescendo economicamente sob o peso das constrições sociais que deformavam o desenvolvimento nacional. Primeiro a estrutura agrária dominada pelo latifúndio, segundo a espoliação estrangeira que amparada pela política governamental fortalecera seu domínio. Em nossos dias, o principal problema brasileiro é atender essa imensa massa urbana que, não podendo ser exportada, como fez a Europa, deve ser reassentada aqui. A moderna industrialização brasileira teve impulso através de dois atos de guerra propostos por Getúlio Vargas que foi a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda e a devolução das jazidas de ferro de Minas Gerais que deram origem a Vale do Rio Doce. Essa política de capitalismo de Estado e de industrialização de base provocou reações adversas dos privatistas e dos porta-vozes dos interesses estrangeiros. Quando Getúlio se prepara para a criação da Eletrobrás e da Petrobrás a mídia faz uma campanha de desmoralização do seu governo o qual valeu o próprio suicídio, que acordou a nação para o caráter daquela campanha e quais os reais interesses dos inimigos do governo. Com a eleição de Juscelino Kubtschek, desencadeia a industrialização substitutiva, abandonando a política de capitalismo de Estado atraindo numerosas empresas para implantar subsidiárias no Brasil, concedeu subsídios, terrenos, isenção de impostos, empréstimos e avais estrangeiros. O Estado brasileiro não tem nenhum programa de reestruturação econômica que permita garantir pleno emprego a essas massas dentro de prazos previsíveis. Os tecnocratas dos últimos governos só veem saída na venda a qualquer preço das indústrias criadas no passado com tão grandes sacrifícios, confiante em que isso nos dará a prosperidade, se não para o povo trabalhador, ao menos para os que estão bem integrados no sistema econômico. O que nos falta hoje é maior indignação generalizada em face de tanto desemprego,
tanta fome e tanta violência desnecessárias, porque perfeitamente sanáveis com alterações estratégicas na ordem econômica. Falta competência política para usar o poder na realização de nossas potencialidades. A própria população urbana encontra soluções para seus problemas com o que está a seu alcance, aprende a edificar favelas nas morrarias mais íngremes fora de todos os regulamentos urbanísticos, mas que lhes permitem viver juntos aos seus locais de trabalho e conviver em comunidades humanas. O favelado torna a crise das drogas no meio em que vive como um sistema de empregabilidade e um padrão de carreira altamente desejável para a criançada. Outro processo dramático é a deculturação dessa população das favelas onde sua gravidade se assemelha ao ocorrido no passado com os índios, o negro e o próprio europeu no processo de deseuropeização. Ultimamente a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrinação. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa fazendo a cabeça das pessoas, impondo-lhes padrões de consumo inatingíveis, desejos inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações e seu pendor à violência. Algo tem que ver a violência desencadeada nas ruas com o abandono dessa população entregue ao bombardeio de um rádio de uma televisão social e moralmente irresponsáveis, para as quais é bom o que mais vende, refrigerantes ou sabonetes, sem se preocupar com o desarranjo mental e mora que provocam.
Nossa tipologia de classes sócias é formada pelo patronato de empresários onde o poder e a riqueza vem da exploração econômica e o patriciado, cujo mando decorre do desempenho de cargos. Cada patriciado enriquecido quer ser o patrão e cada patrão aspira às glórias de um mandato que lhe dê, além de riqueza, o poder de determinar o destino alheio. Nas ultimas décadas surgiu e se expandiu a classe dos tecnocratas, que controlam a mídia coformando a opnião pública, eles elegem parlamentares e governantes, ou seja, eles manda com desfaçatez cada vez mais desabrida.
 Abaixo ficam as classes intermediárias, propensos a prestar homenagem as classes dominantes, tirando disso alguma vantagem. Dentro dessa classe, entre o clero e os raros intelectuais, é que surgiram mais subversivos em rebeldia contra a ordem. A insurgência mesmo foi desencadeada por gente de seus estratos mais baixos. Por isso mesmo mais padres foram enforcados que qualquer outra categoria de gente. Seguem-se as classes subalternas, formada por pequenas proprietários, arrendatários, gerentes de grandes propriedades rurais, etc. Abaixo desses bolsões, formando a linha mais ampla do losango de classes sociais brasileiros, fica a grande massa das classes oprimidas dos chamados marginais, principalmente negros e mulatos, moradores das favelas e periferias da cidade. Essa estrutura de classes engloba e organiza todo o povo, operando como um sistema autoperpetuante da ordem social vigente. As classes subalternas são as classes consumidoras onde seu pendor está mais para defender o que já tem e obter mais, do que para transformar a sociedade. O quarto estrato é formado pelas classes oprimidas que são excluídos da vida social e lutam por ingressar no sistema de produção e pelo acesso ao mercado. Essa configuração de classes antagônicas organiza-se de fato para fazer oposição às classes oprimidas em ração do pavor-pânico que infunde a todos e ameaça de uma insurreição social generalizada.
No Brasil, as classes ricas e pobres se separam uma das outras por distâncias sociais e culturais quase tão grandes quanto as que medeiam entre povos distintos. Essas diferenças sociais são remarcadas pela atitude de fria indiferença com que as classes dominantes olham para esse depósito de miseráveis, de onde retiram a força de trabalho de que necessitam. Não é por acaso, pois o Brasil passa de colônia a nação independente e de Monarquia a República, sem que a ordem fazendeira seja afetada e sem que o povo perceba. Todas nossas instituições políticas constituem superfetações de um poder efetivo que se mantém intocado: o poderio do patronato fazendeiro. A única saída possível para essa estrutura autoperpetuante de opressão é o surgimento e a expansão do movimento operário. É por esse caminho que as instituições políticas podem aperfeiçoar-se, dando realidade funcional à República.

Fonte: "O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro."

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Povo Brasileiro - Capitulo II: Gestação Étnica


Para melhor se infiltrar me meio aos povos indígenas, os europeus se aproveitaram de um sistema muito comum entre os índios, que é o sistema de “cunhadagem”, onde qualquer pessoa de fora da tribo que se casasse com uma filha da tribo passava a gozar dos direitos, regalias e vantagens de um nativo, exercendo grande poder de influencia e desta forma usando esse poder para que a tribo lhe fizesse as coisas de acordo com que lhe convinha, ou seja, manipulando a todos se fazendo como se fosse parte deles e como se os anseios do europeu fosse para a tribo o desejo de todos. Nesse sistema todos eram transáveis, o que possibilitou práticas de incesto, pois não se sabia grau de parentesco de ninguém, uma vez que todos se relacionavam sexualmente entre si. Apenas não se podia um cunhado transar com os sogros, e nem com os nascidos após a união, fora isso poderia transar com qualquer outra que estivesse dentro de sua faixa. Alguns europeus se destacaram por possuírem um enorme número de descendentes e tribos subjulgadas através da prática do “cunhadismo”. Muitos filhos dessa mestiçagem se destacaram ao longo da história do Brasil, como por exemplo Jerônimo de Albuquerque que fora o grande capitão de guerra na luta pela conquista do Maranhão ocupado pelos franceses. Os franceses também fundaram criatórios com base no “cunhadismo” e tiveram um grande número descendentes. Houve um período em que não se sabia se  o Brasil seria português ou francês. Os espanhóis também fizeram parte do sistema de cunhadismo e suas participações se dão em lutas contra os portugueses na Paraíba e no Maranhão sempre ao lado dos franceses.
Para dar fim ao sistema de cunhadismo e fortalecer a sua presença, a coroa portuguesa criou o sistema de donatários, dando vastas faixas de terra para alguns de seus nobres que deveriam se estabelecer nelas, torna-las produtivas e rentáveis para a coroa. Essa era também uma forma de consolidar a dominação pelas terras de além mar na luta contra os franceses que almejavam a criar a “França Antartica” na região da Guanabara. Na vinda desses nobres, acampanhara-lhes nessa jornada poucas mulheres portugueses, e dessas poucas nenhuma solteira. Para sanar a necessidade de casamento e procriação, os Jesuítas casavam com os portugueses as mamelucas que já vinha de uma miscigenação do indígena com o português e por serem educadas pelos jesuítas já recebiam uma instrução dentro da fé cristã, assim como modos e maneiras de comportamento de uma esposa europeia. Porém, mesmo essas não eram um número suficiente para suprir o contigente de homens afoitos e em idade de se casar, para esta questão os jesuítas solicitaram então o envio de mulheres de toda a sorte que Portugal pudesse enviar, vindo então meretrizes e órfãs para casar com os portugueses que aqui estavam como uma forma de conter o grande índice de fornicação com as nativas. Mesmo isso não fora o suficiente para conter a lacividade do português, o que fez com que a maior parte dos brasileiros fossem nascidos essa mistura com o índio.
Com as donatárias foram fundadas as primeiras vilas, que juntamente com os jesuítas passaram a reger uma  nova forma de convivência com os índios, em que a convivência cordeal e igualitária do cunhadismo ia dando lugar a disciplina rígida, havendo inclusivo punição com a morte por parte dos religiosos para aqueles transavam com as índias se estendendo a elas inclusive. Nesse mesmo período a relação entre o europeu e o indígena Fo se estreitando, o escambo já não era mais algo interessante para os índios a medida que viam demanda no trabalho crescer cada vez mais, ora pela dificuldade de se encontrar o pau-brasil e ir buscá-lo cada vez mais longe e ora pelo aumento das terras para a lavoura e a redução de gente pra trabalhar, muitos pereciam nos campos. Para o europeu tinha as questões de El-rei e dos religiosos que hora permitiam a caça e escravização de algumas tribos e ora proibia através de decretos. O sistema chega ao seu limite onde além do Genocidio de indiso causado pelas guerras e doenças trazidas pelos europeus, vemos um novo genocídio, o do desgaste pelo trabalho árduo em que muitos não resistiram a tanto esforço e alimentações escassas e pereceram, os europeus exauriam a força de trabalho indígena ao máximo nas capitanias, principalmente nas do sudeste. Simultameamente surgia no nordeste uma nova formação do povo brasileiro, composto por mamelucos e brasilíndios gerados pela mestiçagem de europeus com índios e que se somou posteriormente aos escravos africanos, onde em toda essa mistura começou a gerar “protobrasileiros” que vão se assemelhando a nenhum destes e obtendo uma matriz profunda que hoje conhecemos com o cabeça-chata nordestino.

Os brasilindios são os grandes responsáveis pela expansão do Brasil adentro, são eles formados por filhos de índios com portugueses que por não serem aceitos pelas matrizes indígenas, uma vez que para os índio a mãe era apenas um saco onde o homem colocava sua semente para germinar caracterizando o filho como sendo apenas do pai, nem pelos portugueses eram legitimados por conta de sua mestiçagem. Assim, logo que cresciam desempenhavam o papel de desbravar o interior para a caça de outros índios para servirem ao trabalho escravo à que eram submetidos até esvaírem-se todas as suas forças. Esses brasilindios também eram chamados de mamelucos, desgnação dada pelos espanhóis num analogia com o sistema de castas de escravos árabes onde mamelucos era o nome dado àquele que subjulgava e destratava os de sua matriz étnica. Os mamelucos em sua campanha de desbravar o interior romperam o tratado de Tordesilhas chegando aos territórios paraguaio, argentino e uruguaio, os brasilindios paulistas foram os principais condutores do processo de expansão.
Os negros do Brasil são em sua maioria da região da costa ocidental africana. Tendo várias etnias diferentes, desde os de yorubá como os de origem islâmicas, havendo também o povo Bantu da região do Congo. O negro fora trazido para substituir o índio  no trabalho da lavoura, uma vez que eram povos agrícolas e tinha grande conhecimento no manejo da terra, até mais que o índio. Para que não se juntassem e se rebelassem, os negros eram separados de suas tribos matrizes e misturado ao outros de outras tribos e que falavam outros dialetos, dificultando assim a comunicação entre eles. O continente africano era uma Babel de línguas e dialetos, o que dificultou a comunicação entre eles durante muito tempo. Porém com o tempo os negros foram se adaptando ao idioma do europeu e começaram a falar e a se comunicarem entre si em português. São eles os responsáveis pela unificação e propagação da língua portuguesa, uma vez que o mameluco falava um dialeto próprio com matriz na língua tupi conhecido como Nhengatu. A partir de então, com o negro passando a se comunicar com uma única língua é que começaram a surgir as primeiras manifestações por liberdade. Mas antes disso, a empresa escravista irá se fazem em cima da violência mais crua e coerção permanente, com os castigos mais atrozes, desumanos e desculturador de eficácia incomparável. Tal qual como o índio, o negro era exposto ao trabalho até se esvaírem todas as suas forças, não podendo fugir daquilo a não ser através da morte, muitos chegaram a cometer suicídio para não ter que viver de forma bruta ou morriam em tentativas frustradas de fuga, pois era impossível fugir devido a alta vigilância. O negro sofreu várias augurias, foi submetido ao exílio, isolamento, a multilação, a uma vida solitária sem sexo e sem família, onde muitos pereceram. Essas atrocidades fazem parte da nossa sociedade que é opressora, classista e o pobre é explorado até hoje.
Devido à auto identificação própria e nova, surgem o que Darcy Ribeiro denomina como os neobrasileiros, que são aqueles nascidos aqui e que passam a criar uma identidade própria sócio cultural, buscando incorporar a todos numa identidade étnica única. Os neobrasileiros por muito tempo exibiria uma aparência mais indígena do que negra ou europeia, inclusive na concepção de suas moradias como nas questões comportamentais. A língua Nhengatu começava a expandir-se pelo país se tornando por um período a língua geral na fala dos neobrasileiros, essa língua fora introduzida pelos jesuítas como língua civilizadora subsistindo até o século XX. O processo de sucessão também ocorre com a técnica agrícola que incorpora cada vez mais elementos europeu a medida que a economia mercantil se moderniza. O processo de formação dos povos americanos se deu de diferentes formas tal que aos gentis colonizados pelos portugueses tem em sua formação étnica a misigenação entre os da terra e o europeu e o negro, que em ração de não se identificarem pertencentes a nenhuma dessas três matrizes irá se criar uma nova etnia sua e sem uma única raiz ancestral, mas uma mistura de raízes, nasce então o brasileiro, que passa assim a ter uma identidade coletiva. O processo de construção étnica deixa marcas apenas de um grupo mais letrado, dos quais esses tem um fanatismo pela reafirmação da herança étnica do colonizador português, não reconhecendo a até mesmo menosprezando os mestiços que como Darcy ribeiro menciona, não eram aceitos na raiz genética europeia e nem indígena, portanto eram rechaçados. Esta parcela da população necessitava de criar uma nova etinia, a brasileira, mas mesmo dentre estes haviam conflitos com os que também não eram aceitos devido a possuírem outras raízes étinicas.
Tanto portugueses quanto os espanhóis sempre relataram o contingente indígena de maneira a amenizar a sua quantidade e dignificar o papel do conquistador. Estima-se que o número da população indígena nas Américas seja o dobro do que relatam os documentos da época, e que fora reduzido a bem menos da metade ao longo do processo de colonização. Os índios capturados e escravizados eram enviados para trabalhar em diversas regiões da colônia e muitas vezes distantes de suas tribos. Durante muito tempo a população indígena continuou sendo disimada e capturada, além de perderem suas terras a partir da aproximação do homem branco. Ainda na primeira década do século XX a situação indígena era bastante conflitante, foi então que o humanista Cândido Rondon e seus companheiros estabeleceram um corpo de diretrizes que por décadas orientaram uma política indianista oficial.

 A conquista do território brasileiro custou caro a Portugal que vivia sob ameaça constante de ser engolido pela Espanha na luta por fronteiras. A construção da população se faz como resultado de uma política espontaneísta, deflagrando na depopulação de milhões de trabalhadores com o incremento de outros milhões, ela se constrói pela dizimação mais atroz e pelo incremento mais prodigioso, utilizando do ventre de mulheres indígenas escravizadas. O branco colonizador e seus descendentes aumentavam a população não pelo ingresso de novos europeus, mas sim pela multiplicação de mestiços e mulatos. O negro crescia passo a passo junto com os brancos, uma vez que eram trazidos novo contingente da Africa apenas para repor os desgastados pelo trabalho ou para aumentar o estoque disponível para projetos produtivos.



Fonte: "O Povo Brasileiro" - Darcy Ribeiro